setembro 29, 2004

Ignorância e felicidade na letra de uma canção

Saber um idioma estrangeiro reduz à metade o prazer do desconhecido, ou o prazer do som das palavras desconhecidas. Isso vale para o cinema — claro —, mas principalmente para as letras de música.

Por isso, quando me falam das maravilhas da infância, eu só consigo me lembrar de uma: a de ouvir e cantar músicas em inglês sem ter a mais vaga noção do que se dizia por aqueles sons. Acho até que não se dizia nada — o que só endossa minha tese de que o som é superior ao sentido. Naqueles momentos, eu forjava minha primeira farsa e não sabia. Ah, se houvesse algum registro...

Na verdade, ainda bem que não há registro. A sedução da memória nebulosa é muito melhor que a prova científica. Também ela é pessoal e intransferível. E assim, entre sons desconhecidos e memórias incertas, fazemos nosso passado minimamente interessante.

Chego a supor que, nessas interpretações singularíssimas, nossa personalidade vai-se individualizando. Afinal, não usamos linguagem comum aos outros; não havendo código, não há comunicação intencional. Assim, whin óu in dru sin das biukanas não interessa a ninguém; é exclusivo, inédito, autêntico. Desconhecer um idioma e falá-lo talvez seja a melhor maneira de ter alguma originalidade, pelo menos num mundo pós-semiologia, pós-análise do discurso, pós-tudo.

Tudo isso é uma resposta a uma crítica de um amigo que me ouviu ouvindo “Hotel California”, do Eagles. Disse-me que eu deveria prestar atenção à letra — horrível, em sua opinião. Não o fiz, nem pretendo fazê-lo. De outras vezes, as músicas ganharam sentido e perderam todo sentido. Não quero estragar tudo de novo.

setembro 27, 2004

Um museu de grandes novidades.

Por aqui já se falou de terrorismo suicida e de Foucault. Pois bem: em meio à bazófia esquerdista que vê no terror "resistência justa", nada melhor do que lembrar o trágico papelão vivido pelo filósofo francês em suas estapafúrdias declarações acerca da beleza da revolução islâmica no Irã. (via Andrew Sullivan).

setembro 26, 2004

Clichê na sala escura

Sou bastante irritável, confesso. Intolerante até. Tudo bem. Mas acho que muita gente há de concordar comigo que é insuportável ouvir, à saída do cinema, esse tipo de coisa:

— Ah, mas o livro é muito melhor que o filme!

Lógico. É um filme. É preciso que o livro seja muito, muito ruim para que o filme o supere. Mas aí também não há sentido: quem produziria, dirigiria, estrelaria um filme baseado em um livro muito, muito ruim? E quem assistiria a esse filme?

Poderíamos deixar estabelecido de uma vez: livros são melhores que filmes — o que não torna os filmes necessariamente ruins. Por isso mesmo é que os cineastas têm procurado a literatura como fonte; nunca se viu o contrário.

André Bazin costumava dizer que as adaptações para o cinema — se não forem boas em si mesmas — têm pelo menos a vantagem de divulgar para o grande público um autor de qualidade. Com mais alguns leitores, a literatura só teria a ganhar. Não sei, não, mas fica aqui o registro.

setembro 23, 2004

Ladrãozinho!

No sinal da rua Humaitá que serve a quem queira seguir para a Lagoa pelos lados de Ipanema, há uns meninos, muito apropriadamente chamados de meninos do sinal. Um se destaca. Acho que se chama Cláudio e é conhecido como Júnior. Mas isso eu não posso assegurar; nunca lhe perguntei. O que sei é que sempre dou um real a ele.

Ele se oferece para limpar o vidro do carro. Pelo material utilizado, não creio que Júnior consiga fazê-lo de fato. Em todo caso, ele oferece. E deve funcionar, pelo menos nos fins de semana, quando está por ali. Nos outros dias, parece que trabalha em uma padaria no subúrbio. Mas essa é só uma impressão que eu tive.

Dou a ele um real. Ele nunca lavou o vidro do meu carro; também não posso dizer que dê esse dinheiro por pena. Estou anestesiado demais para isso e quando sinto pena me dou vários beliscões. O fato é que o Júnior sempre me leva um real. E em nota, que vale mais, porque sai da carteira, não é apenas um troquinho em moedas jogado no cinzeiro.

Esse Júnior é um grande manipulador. Fiquem atentos. Ele é de uma desonestidade rara. Quase não fala, oferece seu serviço sem muita convicção, mas quando nos olha através do vidro do carro abre um sorriso irresistível. Misto de alegria momentânea e simpatia eterna, o sorriso de Júnior nos leva um real. Não chega a ser grande coisa, numa tarde cansada, mas que é desonesto, isso lá é.

setembro 22, 2004

Apenas mais uma opinião

Uma febre no mundo eletrônico é a da pesquisa. A pretexto de ganhar a adesão de internautas ávidos por interatividade, criam-se perguntas e respostas sobre o assunto do momento. Não bastasse a falta de credibilidade, abunda a imbecilidade. Não me refiro aos temas — quanto mais insólitos, mais interessantes —, mas à dúvida original do pesquisador. A última do Globo: “Se você pudesse, pagaria US$ 105 mil pela camisa do Rei Pelé?” Se eu pudesse? É isso mesmo ou eu ouvi errado?

setembro 19, 2004

Nelson e as gotas de chuva

O trânsito estava lento. Era uma quinta-feira chuvosa e escura, lá pelas cinco da tarde. Nelson teve uma idéia. Colocou o rádio na estação que tocava música clássica e pôs-se a contemplar os pingos de chuva que caíam sobre o pára-brisa do carro, refletindo as cores das lanternas dos outros automóveis. Parecia que eles acompanhavam a melodia. Lindo, lindo, pensou. Aquilo tudo o sensibilizou demais. Nelson teve outra idéia. Estacionou o carro em um refugo à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, desligou o limpador e contemplou o infinito através do vidro do carro. A imagem dinâmica dos pingos coloridos ganhou uma imprecisão de contornos que acentuou a sensação bonita daquele momento. A música suave o envolveu por completo. Nelson começou a chorar.

Por que chorava Nelson naquele fim de tarde cinzento à beira da Lagoa? Será difícil dizê-lo. Não que ele tivesse tantas angústias e inquietações, que qualquer palavra fosse incapaz de dizer seu sentimento intenso. Nada disso. Na verdade, Nelson era o típico representante da mediocridade mundana. Não refletia muito, nem tinha grandes problemas existenciais. Se chorava, era por um motivo muito mais banal. Por que, então, a dificuldade em dizê-lo? Ora, porque o narrador fica constrangido em contar que Nelson chorava apenas pela beleza do choro. Não entendia nada de música clássica. Para ele, tratava-se apenas de trilha sonora. O colorido da chuva era seu cenário; o choro, seu enredo. Faltava-lhe argumento.

Desde pequeno, Nelson se sentia pertencente a uma espécie intermediária de homem. Não era um idiota, a quem coubesse estudar na véspera da prova, passar na reclassificação para uma faculdade particular e fazer planilhas pensando nas férias. Mas também não era uma inteligência à mostra, capaz de perceber com agudeza a realidade, identificar referências nos filmes ou escrever uma frase de efeito. Vivia no pior dos mundos. Admirava as profundidades, mas só podia contemplá-las da superfície. Queria mergulhar, mas se afogava a cada tentativa. A essa altura, o leitor deve imaginar que essa limitação consciente fazia de Nelson uma pessoa infeliz. Engana-se. A infelicidade seria demais para ele. Nelson não a alcançava.

Seus amigos e familiares dividiam-se entre os idiotas e os sensíveis. Os primeiros achavam Nelson idiota. Os outros não achavam nada. Algumas vezes, alcançou dos amigos inteligentes — na verdade, ex-colegas, que o convidavam ao cinema por falta de companhia — uma atenção momentânea. Num jantar ou numa festa de aniversário, formavam-se rodas de conversa. Nelson acompanhava todos os movimentos com dedicação concentrada. A cada lance, cada frase dita por um amigo, voltava a Nelson aquela sensação de sempre: a de que quase pensou o mesmo com alguns segundos de atraso. Era sempre assim; alguém sempre se antecipava a ele. Melhor que fosse dessa maneira, porque, nas poucas vezes em que deu um passo à frente, arrependeu-se mortalmente:

— Mas isso não é nada. Tem um livro...

De repente, todos o olhavam. E Nelson ia murchando, murchando, baixando a voz, até quase desistir de falar. Uma vez ou outra, um amigo mais próximo ainda tentou salvá-lo, elogiando seu comentário. Era uma concessão, e Nelson sabia disso.

Na verdade, Nelson tinha a impressão de que algo muito profundo, complexo e agudo se retorcia dentro dele. Era como uma intuição que, de tão singular, se fazia inefável. Para ele, era só ter um pouco mais de concentração e disciplina que as coisas se arrumariam. Achava que lhe faltava apenas confiança. Nelson se enganava. Faltava-lhe talento. E, à falta dele, sobrava-lhe vontade. Nunca, porém, a vontade superou o talento, mas isso Nelson não era capaz de perceber.

Naquela tarde escura, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Nelson quis sentir alguma coisa. A música o sensibilizou; o colorido informe dos pingos no vidro também. Algumas lágrimas correram seu rosto, e ele viu nisso uma bela analogia com as gotas da chuva. Poderia ter pensado que aquela água insistente e abundante representava a fluência que ele não tinha. Poderia, em vez disso, imaginar que aquela cena bela e vazia era uma metonímia para sua própria vida. Mas Nelson não pensava nada disso. Intuia algo grandioso, belo e comovente, mas não sabia bem o que era. Suas lágrimas cessaram logo, a chuva também, e a música deu lugar à publicidade. Nelson ainda tentou mudar de estação e olhar na direção de uma paisagem bonita, mas o sentimento o havia deixado novamente.

setembro 17, 2004

Sobre a Violência

É uma idiotia, um preconceito, uma discriminação pôr a culpa da violência do Rio nos favelados, nos desprovidos, nos traficantes - a culpa é de todos nós, de nossa sociedade burguesa, que cisma em contratar vigias que dormem a noite inteira ouvindo radinho de pilha.

***

(mas meu sonho é virar vigia e ser pago para ler Aristóteles madrugada adentro)

Devoro-te

A decifração do manuscrito Voynich foi concluída. Tenho cá minha suspeita: o tal do psicólogo inglês que resolveu a charada deve ser crítico de literatura pós-moderna nas horas vagas. Precisa transformar sua descoberta em tese. E pensar que ninguém teve essa idéia antes. Tsc, tsc, tsc.

setembro 16, 2004

O liberal e sua libido

Esquerda? Direita? Vou ver. Com direito a Millôr, sempre: “a diferença fundamental entre direita e esquerda é que a direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a esquerda acredita cegamente em tudo que ensina.”

setembro 15, 2004

Explicando o beijo apaixonado dos Clintons na cama do Hospital

Acompanhar campanhas políticas diverte, e não há tema que vista melhor a carapuça deste blog. Mas como a coisa no Rio anda morna e de São Paulo entendo pouco, mudo para a “Fox News” e treino meu inglês.

Por aqui muito se dizia, há alguns meses, que a eleição americana deste ano seria mais do que a mera escolha do próximo presidente – em verdade, funcionaria como um referendo popular de aprovação (ou condenação) da estratégia de combate ao terrorismo conduzida pelo presidente Bush.

Como se vê, nada mais distante da realidade. Surpreendente como possa parecer, mesmo em meio à tempestade política provocada pelo time de Bush nos últimos três anos, é o caráter de John Kerry, o adversário democrata, o principal tema desta campanha.

Há lógica (e intenção) por trás dessa dinâmica eleitoral. A maior parte da população americana ainda enxerga o mundo e os homens por meio de categorias cristãs. Há bem e há mal – há sim e não, exatamente como nas palavras de Cristo que citei em meu post anterior. A convicção é tida pelos americanos como um valor em si, sendo a ambigüidade sinal de fraqueza moral. Os atos são quase sempre julgados pela intenção que se imagina tê-los motivado, e raramente por seus resultados práticos.

John Kerry é a imagem da ambigüidade. Transita de uma posição a outra como quem troca de camisa, o que se verifica facilmente por meio de seu longo histórico de incoerências no Senado. Chamam-no por lá de flip-flopper, algo como o nosso “vira-casaca”. Daí o esforço de seu staff para trazer à tona algum heroísmo de guerra de 30 anos atrás - foram buscar no Vietnam o verniz que Bush conseguiu no Iraque.

Ora, falar de Vietnam nos Estados Unidos é enfiar agulha em nervo exposto. Além disso, mesmo o heroísmo de Kerry tem sido questionado (com sucesso) por meio das mãos habilidosas (e invisíveis) dos estrategistas republicanos. É uma sinuca-de-bico: não podendo apresentar o sua participação na guerra como credencial de firmeza moral, Kerry passou a encenar essa firmeza por meio de ataques previsíveis ao serviço militar do presidente Bush na National Guard. O resultado não poderia ser pior, e o escândalo envolvendo a falsificação de documentos pela rede CBS é amostra disso.

O que se pode observar através das últimas pesquisas é, portanto, paradoxal: mesmo com o desastre no Iraque, mesmo com o aumento sem precedentes do déficit público americano e com a lentidão da retomada econômica (não esquecendo as imagens de tortura em Abu Ghraib), a candidatura Kerry não consegue decolar. E se estou certo, é fácil entender o porquê: os democratas serão derrotados por não terem conseguido compreender em tempo a natureza desta eleição (a primeira desde o 11/09) – o que está em jogo não é o logos do candidato, e sim seu ethos - talvez dissesse o apóstolo Paulo que, eventualmente, “todas as outras coisas lho serão acrescentadas”.

Thoreau neles!

Já que a desobediência civil é regra de fato, talvez seja o caso de regrá-la de direito, tornando-a oficial: “Isto pode, aquilo ali já é demais!” Difícil, né? No mínimo, um belo paradoxo. Mas deixemos a beleza de lado, que estamos falando de cadáveres, crianças traumatizadas, tortura.

O Terrorismo diz que fica; é, nas palavras do Márcio, endógeno à cena política contemporânea. Pergunta-se: trata-se, a partir de agora, de conviver com esse hóspede problemático? É isso mesmo? Precisamos traçar estratégias de “boa vizinhança”? Minhas breves lições de lógica me ensinam que não dá, de jeito nenhum. Então é o caso de esperar que o Terror se eduque e arrume uma maneira “bem-humorada” de protestar? Batman na sacada? É eficaz? Você, por exemplo, se sensibilizaria mais com o “Bloco do Osama” alla Casseta e Planeta nas ruas de Nova Iorque do que com o 11 de setembro? Faria diferença para a “causa” a sua simpatia? O folclórico não desgasta a ação sem incomodar de verdade?

Estou pasmo, mas algo continua me dizendo que isto é menos pior.

setembro 13, 2004

The dream is over

Tenho pena dos humanistas, entre os quais me incluo. Já não tinham sonhos e estão perdendo o sonho. No luto das Ciências Humanas, quero um lugar de honra para chorar copiosamente. Sempre fui romântico.

Estratégias Bíblicas de Campanha

A boa nova de Bush:
"Seja, porém, o vosso "Sim", sim, e o vosso "Não", não; o que passar disto vem do maligno."
(O Evangelho Segundo Mateus, cap.5, vs. 37)

A boa nova de Kerry:
"Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança..."
(Kohelet, cap. 10, vs. 16.)

Bush, CIA e Maluf, talvez

Um furacão nas Ilhas Cayman? E o Fidel rejeita “ajuda hipócrita”? Não estou com tempo para procurar, mas já devem estar suspeitando de conspiração por aqui.

setembro 12, 2004

Mater dolorosa

Calou-se mais uma vez. Sabia que não adiantava argumentar. Sua mãe sempre teria a vantagem de poder chantageá-lo. Ela não o compreendia, nem agora, nem nunca. Ainda que ele insistisse em dizer que a escola não tinha importância e que poderia aprender muito mais com os amigos, ela fazia de tudo para que ele ficasse em casa. Preocupação inútil. Ele era teimoso. Mas ela insistia.

Ele desistiu de fazer a despedida. Havia pedido para conversar com ela apenas para satisfazê-la. Já antevia o choro e pretendia torná-lo menos incompreensível. Errou: mães não costumam ouvir, pois correm o risco de estar erradas. Preferem as lágrimas. Por isso, calou-se, deu-lhe um longo abraço e disse que ela não deveria ficar preocupada. Estava tudo sob controle.

Bateu a porta de casa e andou cerca de dez metros. Olhou para trás e entreviu a mãe pela fresta da janela. Ela chorava como nunca. Talvez antecipasse que sua teimosia o levaria a alguma aventura arriscada. Talvez temesse, talvez apenas estivesse arrependida de não tê-lo criado melhor. Assim são as mães, ele pensou novamente, antes de continuar andando. Que besteira!

Alguns quarteirões depois, pensou em ligar para casa, mas estava próximo demais de seu destino. Foi tomado pela tensão, embora soubesse que seria infantil voltar atrás e que alguém teria que fazê-lo. Respirou fundo e andou mais um pouco, até alcançar o banco da praça em que receberia a mochila com a encomenda. Não chegou a esperar mais que dois minutos. O enviado mascava uma goma qualquer e parecia calmo. Isso o tranqüilizou.

O azul da mochila lembrou-lhe outra vez a mãe, que vestia um véu em tom semelhante. Pensou novamente em ligar para ela. Pensou apenas; e continuou seu caminho. Quando finalmente chegou à porta da escola, respirou fundo mais uma vez. E mais uma vez pensou na mãe, vendo um caderno cinza na mão de uma aluno. Era igual ao que ela lhe dera no início do ano. Inútil, pensou, um segundo antes de ativar o detonador. Já não pensaria mais na mãe.

setembro 11, 2004

À francesa

Sensatez é um defeito. Um pouco de senso de ridículo é constrangimento certo diante da TV. Saia Justa, do GNT, costuma levar-me as mãos ao rosto com freqüência. Por que não mudar de canal? Não sei, acho que aquelas poltronas me atraem, e o cenário é uma beleza.

Mas as coisas estão mudando por lá. Parece que a Rita Lee cansou de controlar as próprias mãos, constrangida que ficava naquele ambiente, e saiu. Em seu lugar, Marina Lima. E o que é melhor: falando sobre sua concepção de homem ideal. Imperdível. Impagável.

setembro 10, 2004

Vale quanto pesa

Andei relendo trechos de um romance escrito por uma famoso compositor bebum e reforcei uma velha convicção: o critério é a capa. Autor, editor e papel, eis um bom livro. Se tiver muitas páginas, melhor. Com 200 ou mais, obra-prima — mesmo que seja material para um conto de 12 páginas. O resto são palavras. Sem nome, vale a metade. Nota cinco tá de bom tamanho, né?

setembro 09, 2004

Pequeno tratado da chatice humana. Ou: Pedido desesperado de ajuda.

Da República do velho Platão à Ética do Bento Espinoza, o chato fica sempre de fora. Alguém aí sabe como resolver o problema? O feio, o estúpido e o grosseiro podem ser tratados a tapa. O chato não: gosta de apanhar. Também não dá pra ser sutil: o chato não entende. Nem mesmo se pode chateá-lo: ele nos torna alvo preferencial de sua chatice.

Acho que o chato é como aquelas baratas depois de uma guerra nuclear. Invencível, locupletando-se em sua chatice. E talvez até matando as baratas de tédio. Creio que nem mesmo sozinho o chato deixa de ser chato. Sobretudo porque o chato verdadeiro não se sabe chato. Imagina-se perspicaz, loquaz, curioso, presente, indispensável. O chato de verdade deve ser especialista em alguma coisa. Um esporte insólito, uma série de TV idiota, um autor pretensioso. Mas, acima de tudo, um bom chato adora teatro.

Não fiquemos com a piada fácil de dizer que isto aqui está ficando chato — até porque está mesmo. Esse post não quer teoria; quer conselhos, sugestões, técnicas, para um problema real do signatário: um chato que o persegue há tempos. O leitor tem alguma idéia?

setembro 08, 2004

Dos tempos da TV Pirata

Mendigo: Moça, me dá um dinheiro pra eu beber alguma coisa?
Moça: De jeito nenhum. Eu conheço seu tipo. Você quer dinheiro é pra comprar comida!
Mendigo: Não, eu juro que é pra cachaça, moça. Por favor!
Moça: Não insista, meu filho. Você vai é encher essa cara de pão!

Lembrei-me da piada politicamente incorreta ao ler isto.

Quem é mais estúpido?

Não bastasse o terror de volta à cena, Bush talvez ganhe mais um reforço. Mas vai ser difícil. De onde estou, avisto pouca coisa: estupidez política de horizonte a horizonte — o que não deixa de ser uma redundância.

setembro 07, 2004

À moda de Charlie Kaufman

Há quanto tempo não comia? Quatro, cinco horas? Sentia-se enjoado, mas se lembrou de comida ao passar em frente a uma dessas lojas de sucos. Tinha inveja daquelas pessoas capazes de devorar com volúpia sanduíches de mil camadas, baicon, maionese, tudo — e ainda por cima, coca-cola, em plena loja de sucos. Mas não tinha fome. Era só um sentimento recorrente: inveja de gente saudável. Saudável no sentido pleno, com saúde para enfrentar toda aquela comida sem passar mal. Desde sempre se apercebera disso. A saúde ou se tem ou não se ganha. Ele não tinha e se sentia enjoado.

Não era o enjôo de sempre, aquele desconforto contínuo, aquele sem-jeito com tudo. Ou era isso misturado. Mas havia um ingrediente novo: tinha resolvido pedir demissão.

(Passara a madrugada em claro. À noite, antes de dormir, um banho morno, um presságio. O barulho da água, o sabonete, a pele e um desejo de descanso definitivo. Lembrou-se do dia, da semana, de sempre e teve uma sensação ruim. Mergulhou a cabeça sob a água e se esqueceu de tudo. Uma camisa limpa, um lençol recém-lavado, a penumbra, o sono.

De repente, acordou sobressaltado. O coração palpitava. Deve ter sido um sonho, um pesadelo, pensou. Levantou-se, foi até a cozinha. Bebeu de um gole um copo d’água, tão sofregamente, que acabou se molhando. Com as luzes ainda apagadas, foi ao banheiro. Lavou o rosto e acendeu a luz à procura da toalha. Olhou-se no espelho e quase não se reconheceu. Olheiras profundas, barba mal feita. Nem parecia ter saído do banho há tão pouco tempo. Voltou à cama, mas não conseguiu dormir.
)

Resolvera pedir demissão. E caminhava para o trabalho. O copo de café da manhã — que ele preferia às xíxaras convencionais —, a última fatia de pão e mais nada. Já era uma da tarde e ele estava atrasado, tinha resolvido ir a pé. Sentia-se enjoado, mas achou boa idéia parar por um suco. Assim adiava um pouco o encontro decisivo.

A meio quarteirão, quase diante da loja de sucos, uma vitrine o reteve. Nela, um manequim nu, à espera das roupas da nova coleção que lhe colocaria o funcionário da loja. Ele olhou fixamente para aquela figurou e vislumbrou ali alguma vida. Delirava. Devia ser a fome. Quis continuar andando, mas havia uma atração pelo manequim: era uma mulher, claro, estava nua e parecia viva.

Estranha também aquela sensação. Um desejo de ir embora paralisado. Ele ficaria ali o dia inteiro, em tensão permanente, corda esticada. (“Corda esticada”? Estranho.)

Fez ainda mais força para sair. Finalmente conseguiu. Já era tarde, ele precisava chegar ao trabalho. Não, já era tarde, ele precisava pedir demissão. Não, ele estava enjoado, algo passageiro. Não, ele precisava tomar um suco. Não.

— Não, você não vai pedir demissão.

— Por que não? E quem é você?

— Uma única explicação: eu sou o Autor e você não passa de um personagem. Não tem vontade própria, não pode pedir demissão.

— Bem que eu desconfiei: “o coração palpitava”, “presságio”, “corda esticada”...

— Como assim?

— Ora, apenas um autor medíocre poderia contar minha história com esses clichês. Aliás, é por isso que pretendo ir embora.

— Como assim?

— Ora, cansei de ser o que sou, um derrotado-padrão. Um personagem solitário, homem urbano, cheio de neuroses, com um ou dois cacoetes, sobrevivendo na selva urbana. Falido, impotente, angustiado. Em pouco tempo eu seria transformado em um assassino em série, cuja história seria narrada com serenidade, como se fosse normal.

— Até que você tem boas idéias...

— Tá vendo? Você é medíocre. Rubem Fonseca genérico. Graciliano diluído. Pior ainda, porque esses pelo menos publicaram livros, são premiados. Você, nem a metade: usa-me para escrever posts em um blog. Suprema mediocridade.

— Mas eu não sabia que personagens...

— Falam? Pensam? Sentem? Não são os personagens, idiota, é você. Nem isso você percebe? Acha que sou mesmo eu conversando aqui?

— Então, quer dizer que esse diálogo aqui é todo meu. E que eu posso...

E pela primeira vez em sua vida, sentiu que algo valia a pena.

(“Não tem jeito”, pensou o personagem, ao ler a última frase. “Estou fadado ao clichê eterno. Preciso voltar àquela vitrine, onde há esperança”)

setembro 06, 2004

Moralidade sábado à noite

Alguém não pagou a caixinha. Aqui.

setembro 05, 2004

O que esperar do diretor de “Pantanal”?

Olga, o filme, trouxe-me apenas duas lembranças.

A primeira é de como o hino da Internacional me emociona (oh, o poder da música, hehehe). Acho até que foi isso que me fez querer ser socialista lá pela sétima série. Na oitava, eu já tinha certeza de que só me restava o anarquismo — ou sua versão melhorada, a anarquia.

A segunda é do meu sonho de ser cineasta, logo abandonado por uma triste constatação: por melhor que fosse meu trabalho, o resultado seria sempre um filme brasileiro.

setembro 03, 2004

Rubem Fonseca deve estar se roendo

A realidade “nua e crua” antes do romance: um estilista que se suicida com uma echarpe. Não é ironia fina, concordo, mas tem lá sua beleza trágica. Tudo bem, sem beleza, mas ninguém há de negar seu glamour.

Perspicácia gastronômica

Conselho de amigo: sempre que for a um restaurante com uma pessoa, espere que ela escolha o prato e só então pense no seu. Isso pode evitar arrependimento.

Está provado que qualquer prato frio, por melhor que seja, perde para o prato quente. E qualquer sobremesa, por mais saborosa que seja, perde para o chocolate.

setembro 01, 2004

Futebol Arte

Não são poucas as partidas de futebol que terminam sem um placar justo. Mas é lógico: tempo de posse de bola não conta, os juízes têm uma vaga percepção do que está acontecendo e os gols são raros — se comparados à pontuação de qualquer esporte coletivo. Ou seja, não se trata de competição de verdade.

Isso posto, podemos esclarecer um mistério antigo: como um país com resultados tão medíocres em quase todos os esportes pode ser tão brilhante no futebol? Ora, quem disse que futebol é esporte? Romário por acaso é atleta?

Dia desses, onze da noite em Atenas, um americano garantiu a medalha de ouro ao superar 5m95 no salto com vara. Vitória olímpica, recorde idem. O público já estava saindo quando o tal atleta resolveu continuar a competição contra ele mesmo. As regras permitem, e ele teve três chances para alcançar os seis metros, aumentando seu recorde. Não conseguiu, estava cansado e só havia superado a marca anterior na última tentativa, mas ele insistiu mesmo assim. Exagerado, é verdade, mas cá pra nós: seria sequer concebíbel um “atleta” brasileiro fazendo o mesmo? E um jogador de futebol?

Se eu tiver razão, posso ajudar a mudar um pouco as coisas, a começar pelo status do futebol. Por que não inseri-lo na categoria dos saltos ornamentais ou da ginástica artística? Notas por coreografia — no caso, dribles e outras jogadas —, avaliação da originalidade, adequação à trilha sonora, o que seja, desde que outros critérios, além do gol, sirvam para um resultado mais justo.

“Mas isso pode produzir ainda mais injustiça”, dirão os céticos. Tudo bem, pelo menos poderemos culpar os juízes com um mínimo de decência. De mais a mais, quem se importa? Eu não: torço pelo Fluminense.