abril 08, 2005

Palavras, palavras, palavras

Aqui no Rio, criaram um movimento contra a violência chamado “Basta!” — logo parodiado como “Bosta!” (obviamente muito melhor) —, cujo objetivo é dar um “grito contra o atual estado de coisas”. Exige muita capacidade bolar uma idéia assim: uma palavra, um verbo tornado interjeição e... pronto. Depois, o grupo percebeu que as faixas estendidas nas varandas mais valorizadas da cidade não chegaram a desanimar os bandidos. Resolveu fazer alguma coisa concreta — só não me perguntem o quê, porque, a essa altura, eu já estava mais entretido com o obituário e os quadrinhos.

Mudando de rumo e buscando “soluções reais e factíveis”, o grupo perdeu sua maior virtude: ser o primeiro movimento inteiramente abstrato, teórico, sintetizado no minimalismo de uma palavra e um ponto de exclamação. Até mesmo o design seguia essa perspectiva: letras em vermelho sobre fundo branco. Apenas isso... e Basta! Que pena. Tivessem me consultado e eu daria uma opinião decisiva: sejam originais e não façam nada. Protesto verbal é o que há. E faz muito sucesso.

Vejam o caso dos colunistas que escrevem nos grandes jornais. Ainda esta semana, li um artigo a respeito do Papa e da Igreja Católica. Levo as mãos ao rosto em sinal de constrangimento e quase não me atrevo a contar o que li, mas... vá lá, façamos o sacrifício: num arroubo crítico contra as instituições, o cara me escreve “igreja católica” assim, com letra minúscula. Ainda dei uma chance a ele, imaginando que fosse erro de digitação, mas o protesto se repetiu quatro vezes. Isso é que é indignação! Como ninguém tinha pensado em algo tão genial antes?!

Fico tentando imaginar o que vai na cabeça de pessoas assim. Deve ser alguma coisa parecida com o que pensam os criadores do Basta!. Se ainda assumissem o discurso vazio, sem fundamento e sem ação, contribuiriam mais com a causa do que qualquer ong (assim, com minúscula mesmo) jamais fez.

O problema, penso, é a falta de leitura. Basta uma horinha em frente ao Bartleby, de Herman Melville, para verificar o que pode a inércia humana. Se bem que o “Prefiro não fazer” (“I would prefer not to”, no original) do escrivão não combina com pontos de exclamação, mas isso é pedir demais dessa gente. Prefiro não fazer.

5 Comments:

Anonymous Renata said...

adorei o post. as criticas me lembraram mto as suas aulas que despertavam uma vontade de mudança alem da teoria... bjs renata wrobel

11:20 PM  
Anonymous Márcio Coelho said...

Exclamação. Não interrogação. Linha 4, 2° parágrafo...

3:38 AM  
Anonymous Anônimo said...

Já está fazendo...

5:15 PM  
Blogger Bruno Rabin said...

Valeu, Márcio. Revisão feita.

6:24 PM  
Blogger Supernova said...

Bartleby valeu (de longe) as horas que fiquei sem estudar no terceiro ano...

Indicação de um professor que usava um sotaque fake-paulista de vez em quando, para desespero dos alunos...

8:59 PM  

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