agosto 31, 2004

Controle Remoto

Se eu pudesse inventar uma profissão para mim, seria um acadêmico-simulator Tabajara. Meia dúzia de idéias, insights para vender, argumentos por acabar.

Mais do que isso, como fica a preguiça? Não falo da física, que a testosterona está aí, mas da intelectual, inimiga de quem nasceu depois da TV. Nem a moralidade nos salva, a nós que não temos vergonha de não melhorar o mundo (risos) — e que contamos com bons defensores, vejam só, publicados em capa dura.

Inteligência zapping, e nada mais.

Um pesadelo

Era uma sala mal iluminada, com mesas enfileiradas. Em cada uma, um jornalista e sua máquina-de-escrever. A missão: redigir a pensata mais rápida sobre o assunto mais quente.

Dalto tinha 43 anos, pelo menos 25 de álcool, o mesmo tanto de redação. Resolveu tomar um café. No meio do caminho mudou de idéia, foi até a sala do editor e lhe fez um pedido. Na mesma hora, a decisão: Dalto seria transferido.

Com sua experiência e sensibilidade, nunca mais o obituário seria o mesmo.

Ou terá sido um sonho?

agosto 30, 2004

João Freire

João Freire foi um professor de português cheio de idiossincrasias. Entre elas, falar a palavra idiossincrasia, o que levou a turma, irremediavelmente, a incorporá-la ao próprio vocabulário. De início, como ironia — vá lá, éramos adolescentes —, depois, como quem toma sorvete. A comparação tem sentido: costumávamos falar das aulas na loja de sorvete Mil Frutas, nos intervalos da aula. (Costumávamos ou foi apenas uma vez?)

Outra de suas manias marcantes era chamar nossa atenção para clichês e modismos de linguagem. Sua maior irritação vinha de quem comentasse, a respeito de um livro ou de um filme, que o tinha considerado interessante. “Palavrinha vazia”, resmungava, “que pobreza verbal!” Se quiséssemos irritá-lo, bastava dizer que Camões era interessante. Ouviam-se urros pelo corredor.

Assim que o conhecemos, não foram poucas as vozes que o execraram. Adolescente tem disso: amar ou odiar na mesma medida extrema, sem ponderação. E João Freire era rigoroso, exigia até noções de Latim. Precisava ser deposto.

Mas o ímpeto agressivo durou pouco. Rendeu meia dúzia de músicas e acabou transposto ao lugar empoeirado em que ficam as lendas e mitos, sobretudo os escolares, sobretudo os idiossincráticos. Acho até que uma labirintite garantiu a adesão de ânimos ainda exaltados. Lembro-me de uma crise que ele teve em sala, recusando-se a terminar a aula para não atrapalhar o rendimento da turma. Houve quem desconfiasse que era jogo de cena, mas a voz mais alta de uma ou duas meninas — sempre elas — levou à absolvição do mestre. A doença costuma nos unir na hipocrisia.

De minha parte, já gostava dele desde antes desse incidente, mas isso não me retira a culpa da hipocrisia. Um ano antes, mais ou menos, outro episódio me fez destilar tudo o que havia de dissimulado em mim. Chegando ao colégio de manhã bem cedo, como convinha à minha neurose, encontrei João Freire estacionando seu inseparável Chevette.

— Ei, Bruno. Venha dar uma olhada nestes quadros que trago comigo.

Aproximei-me do carro, intimidado pela proximidade com o mestre temível. Quando cheguei, avistei aquelas paisagens pintadas a óleo. Dizer que eram convencionais seria um elogio desmedido. Mau gosto era pouco. Não sei o que a minha reação traduzia, mas acho que ele não a percebeu. Tanto que perguntou:

— E aí, gostou?

Naquele instante, poderia ter dado uma desculpa esfarrapada e corrido para o colégio. Quem sabe uma simulação de dor, se bem que isso poderia piorar a situação. Talvez um abraço calado no professor, para me furtar à expressão verbal. Mas eu nunca fui espirituoso quando precisava ser. Não tive escolha:

— Olha, professor, são todos muito interessantes.

Freud riria, eu sei, mas a situação não era para risos. A voz de João Freire, gravíssima, tornou-se quase inaudível:

— Bem, vamos à aula.

Fiquei imaginando que ele me odiaria para sempre e até que se vingaria de mim quando pudesse. Mas, ao contrário, eu passei a ser o aluno exemplar, quase amigo, a quem ele confiava os originais a serem fotocopiados — tarefa que eu entregava à Gabriela, é claro.

Até hoje ficou refletindo sobre aquele episódio. Cheguei a pensar que ele não tivesse percebido o que eu dissera. Pura ilusão. Ele percebeu, certamente. Mas fez o que deveria ter feito: concedeu-me o silêncio e uma mensagem sobre o que devemos fazer quando nos dizem as piores verdades. Ainda não aprendi a lição.

agosto 29, 2004

Canal (sem ponte) entre Hume e Pessoa.

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que amor
Dói mais do que dor de dente.

Ergonomia

Instalamos um novo sistema de comentários (agora à prova de torcicolos).

Divirtam-se.

agosto 27, 2004

E se os irmãos Campos tiverem razão...

É tudo metalinguagem? Ou é meu passado de estudante de Comunicação que me condena? Será que o pessoal não pode falar sobre alguma coisa de verdade? Eu mesmo, bem sei, já tenho caído nesse abismo. E sempre me pergunto: é a paralisia que me leva à metalinguagem ou a metalinguagem que me paralisa? (Tostines, tostines sempre.)

Quando isso acontece, acho que precisamos de vacina. Um bom russo (ou uma bela russa, destilada, que também cai bem), um bom inglês. Dostoiévski, acho que é isso.

Em alguns casos, pelo menos, essa febre é temporária, inicial — assim o espero. Mas pode virar mania e, de mania, vira estética, manifesto, movimento. Que coisa demodé: engenhosidade, inteligência, sacação, so what?

No final, ou melhor, no fim — que final não há —, sobra pouco, quando tanto. E de tanto ler meta-poemas concretos, chego a achar que eles têm um futuro como testes psicotécnicos. Já imagino uma gerente de RH comentando sobre o estudante de Comunicação candidato a um estágio: Que rapaz inteligente, percebeu até o que a gente não tinha visto!

Rapaz, escute um conselho de amigo: não se meta com a linguagem. (E nem com trocadilhos.)

agosto 26, 2004

Gaiatice Matutina

Acordou cedo. Aliás, sempre acordava. Estava faminto. Aliás, como sempre. Mas ninguém parecia se incomodar. Rondou pela casa, farejou o que podia. Nem sinal de comida. Só lhe restava esperar. Andou mais um pouco, aninhou-se no sofá, mas logo um barulho o tomou de sobressalto. Ligeiro, foi até o quarto, na esperança de encontrar quem poderia ajudá-lo, mas foi alarme falso.
...
Não agüentava mais esperar. Sua barriga roncava e nem mesmo a água parecia limpa o suficiente. Andou um pouco mais, da cozinha ao quarto, à sala, ao escritório, ao banheiro, ao quarto outra vez. Não podia mais esperar. Fez baulho na estante, correu de um lado pro outro, passou por cima da cama. Tudo em vão. Restava sua última arma. Seria preciso usá-la. Então começou a miar.

agosto 23, 2004

Obcecado (um argumento, ou quase)

Ao escrever um romance novo — ou um post, como seria apropriado —, ele perde tudo, por pura ignorância digital.

Caminhos:

1) Obcecado com a tentativa de recompor o que escreveu, capítulo a capítulo, linha a linha, palavra a palavra, ele fica paralisado. Nunca mais escreve.

2) Traumatizado com o incidente, vitimizado pelo “acaso” tecnológico, resolve estudar informática obsessivamente. Afinal, algum sentido deve haver no ocorrido. A cada dimensão, uma hipóstese que se revela equivocada. Até o fim trágico da descoberta: a perda não faz sentido mesmo.

3) Escreve um romance sobre essa perda. Esquecimento e a revelação. Depois escreve outro romance com o mesmo enredo, e mais outro, e outro, enfim dezenas...

(ou escrever um post, mas isso é roubo)

agosto 21, 2004

Ideologia de Botequim

Ele era de esquerda, mas — que diabo! — pediu um whisky ao garçom.

agosto 20, 2004

Um olhar

Pela última vez, uma única vez, ela o esperaria. Estava sem maquiagem e sem salto alto, sentada de pernas descruzadas em uma cadeira desconfortável. Sobre a mesa, o café inutil.

Um minuto, uma hora, uma vida, uma vida e meia. Um café frio, um copo d'água. Desistiria, não fazia sentido esperar, e um olhar estranho a perturbava. Mas qualquer gesto seria uma denúncia: descontrole, desequilíbrio. Não esperaria mais, bastava que o olhar a deixasse ali, naturalmente sentada, contemplando a passagem de tudo, como quem sabe o que faz. Mas o olhar a fazia vitrine, mais exposta que nunca.

A decisão veio aos poucos, querendo escapar-se, desejosa de certeza. Seu corpo não atendeu à solicitação de movimento, ou atendeu, lentamente, dando notícia da indecisão, e — pior — voltando à cadeira, voltando à vitrine. Não era a primeira vez que isso acontecia, assim, na frente de todos.

Sempre que estava à espera se sentia assim. Mais de uma vez procurou a síntese entre o desejo e a ação. Não entendia a imobilidade, e não entendendo não tinha desejo o bastante para vencê-la. No último instante, a decisão parecia perder sentido, apagando-se em um quase desmaio. O corpo pendia, o olhar a retinha, o ímpeto esmorecia. Mas era preciso não esperar. Disso ela estava certa. Ou quase. Ou quase nada. Não, nem disso estava certa: o olhar a estava deixando.

O olhar a deixou. Agora que estava sozinha, a força se fazia ainda menor. Agora que poderia, não desejava. Sentada na cadeira ordinária, o café sobre a mesa, o copo d'água. Imóvel. O corpo todo desconfortável, uma impossibilidade. O olhar a deixou. Ela deixou de existir.

(Por fim chegaram as roupas da nova coleção.)

agosto 19, 2004

Declaração

Subrepticiamente, eu sempre quis começar meu texto assim, subrepticiamente, eis que sou absorvido e integrado à maior de todas as pilhas. Assim como quem não quer nada, só pelas beiradinhas, vamos deixando nossos posts, interrompendo histórias, sussurrando idéias.

Mas é preciso não faltar. Não faltarei.

Embustes

Caramelo é uma farsa.