fevereiro 27, 2005

Contos Sensoriais (I)

Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.

Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.

fevereiro 25, 2005

O Millôr já fez a conta

É sempre uma questão de expectativa. Fosse Greenhalgh ou João Paulo, haveria gritaria ensurdecedora à simples menção da palavra ”aumento”. No que compete à opinião pública, indisposição generalizada, constrangimento e... gaveta. Como se trata de Severino, a quem o aumento nunca pareceu vergonhoso, a perplexidade não dura mais que duas semanas. Até lá, tudo estaria certo — se a estratégia fosse a do silêncio.

Mas Severino não se agüentou e colocou os argumentos na mesa:

— É evidente que a sociedade quer. Ela está aceitando. Não tem sido é bem esclarecido. Não existe essa coisa de posição contra. O que a sociedade não aceita é desonestidade, é roubalheira. E se existir isso dentro da Câmara, vou acabar.

A sociedade é abstrata; não vai ser ouvida pelos jornais ou pelo Congresso. Mesmo que o fosse, não serviria, pois não sabe o que fala. Nem de seus representantes se pode esperar grande coisa:

— Isso é um problema desses partidos que estão fazendo apenas demagogia. Eles estão doidos por esse aumento. Não vai perder (em plenário) que eu tenho certeza, porque demagogos têm poucos aqui na Câmara.

Subestimar o outro não tem sido boa estratégia: as palavras ferem mais do que o aumento. Se voltar a ficar quieto, tendo razão (ignorância e demagogia), é capaz de chegar aonde quer; não seria surpresa para ninguém. Articulistas em jornais só se fazem ouvir por quem os lê. Não parece ser o caso.

Como diz o Millôr, dividindo toda nossa indignação por todos os problemas do país, o percentual que sobra para cada um é muito pequeno.

fevereiro 23, 2005

Da janela

Era uma paisagem tão bonita, mas tão bonita, que parecia uma foto.

fevereiro 21, 2005

Pax Cannabis

O problema não é ter fumado; o problema é não fumar mais.

fevereiro 19, 2005

Escolhas

Amigos da farsa;

Já mochilaram alguma pela Europa? Estou planejando mochilar durante minhas férias, mas nunca pensei que organizar tudo fosse tão difícil. Aliás, pra dizer a verdade, nunca enfrentei um número tão grande de escolhas em tão pouco tempo: devo investir em profundidade (passando bastante tempo em poucas cidades), ou em lateralidade (visitando muitos lugares, mas ficando por pouco tempo em cada um deles)? Devo ir de uma cidade a outra de avião, ou devo viajar de trem? Devo levar minha câmera digital, ou devo trazer comigo a de estimação, que é manual?

Coro: Tantas escolhas!, tantas escolhas!, tão pouco tempo! (acabei de assistir ao Poderosa Afrodite)

Tenho que confessar, no entanto, que o pior de todos os dilemas é a escolha do livro que me acompanhará na jornada. Fiz uma seleção prévia e arrumei os candidatos numa pilha em cima da mesa do quarto. Primeiro, eliminei tudo que tinha capa dura – as obras completas do Oscar Wilde, “Paidéia”, do Werner Jaeger (alguém já leu algo mais maravilhoso?), um volume das obras completas do Borges. Decidi então que levaria um romance – tirei da pilha um livro do Voegelin, o “Jews and Islam”, do Bernard Lewis e... fiquei com o “Complexo de Portnoy”, do Philip Roth. Não sei se a escolha foi boa, mas é a vida neste meu lugar. E como dizia Santayana (attention please: momento erudição barata!), “a vida não é nem um espetáculo, nem um banquete – é um dilema” (tirei a frase daqui. Aproveitem e leiam o post todo).

Mas enfim - depois de vários papéis amassados, algum sangue, muitas lágrimas e dor de cabeça, tomei as seguinte decisões:

Câmeras: what the heck! – a manual e a digital.
Livro: “O Complexo de Portnoy”, do Philip Roth.
Cidades: Madrid, Toledo, Barcelona, Roma, Florença, Berlim, Amsterdam e Paris (nessa ordem, mas não exatamente nessa ordem).
Remédios: Tylenol, Adnax, Singulair, Claritin D, Rinosoro, algum antibiótico (não lembro do nome), e um colírio (não tenho óculos escuros - going to Amsterdam, baby (just kidding!)).

O que acham?

Homo Economicus Ethicus, as if

Os escândalos financeiros recentes no mundo corporativo americano (Enrom, WorldCom, Tyco) deram espaço a uma pergunta “despropositada”: e a ética desses caras, onde foi parar? Quem a faz não é o barbudinho da esquina, mas o ex-professor da LSE Sumantra Ghoshal, em artigo póstumo. Para ele, a raiz comum aos problemas está nos cursos de MBA, requisito de dez entre dez engravatados das grandes companhias.

Segundo Ghoshal, os MBAs se arrogam um status acadêmico discutível. Estudos de caso e modelos matemáticos não compõem base científica — afirma —, sobretudo porque dispensam a reflexão metodológica e resumem o mundo dos negócios a duas verdades simplistas: a soberania do homo economicus (utilitarista, racional, competitivo) e o objetivo único de maximização dos ganhos dos acionistas das grandes empresas.

Com o diploma na mão, a rapaziada recrutada pelas empresas se sentiria livre, do ponto de vista moral. E essa liberdade — mal lida em cursos de um ano ou dois — estaria se voltando contra as próprias corporações e os próprios businessmen. Daí os escândalos.

A Economist, é claro, dá seu recado. Além de excessiva, a crítica de Ghoshal desconsidera três pontos centrais: 1) nos escândalos citados, os executivos corruptos, em boa parte, não fizeram MBA; 2) a crença no homo economicus tem decaído em toda parte, até mesmo na Universidade de Chicago; 3) não se pode esperar aprofundamento científico de um tipo de curso cuja essência está na prática dos negócios. Para a revista, o problema é outro: corporações que valorizam esse diploma em demasia, como se a capacidade de liderança pudesse vir de conhecimentos despidos de maturidade e sabedoria — para os quais não há curso possível.

Ainda assim, adesões de pesos-pesados têm feito a onda do momento na discussão acadêmica no eixo EUA/Inglaterra. Não chegam a ser tsunamis, mas já limparam quintais: Harvard e Stanford aceitam parte das críticas e passam a incluir Ética como disciplina de seus MBAs. “Escolha” e “intenção” deixariam os dicionários para entrar na análise econômica dos administradores recém-formados.

No Brasil, a expansão MBAs só é comparável à de cursos universitários; o mesmo se pode dizer de sua qualidade, questionável na maior parte dos casos. Mas a discussão não deve pegar. Antes e fora da moda desse diploma, a corrupção nunca foi o ponto fora da curva; na maior parte das vezes, é a própria curva. Por aqui, reserva-se à Ética o bueiro da discussão dita “ideológica” — à direita e à esquerda —, como se isso a tornasse indigna.

fevereiro 18, 2005

Da idiotice humana

Há, para quem não sabe, uma escala da idiotice humana. Cada um de nós se comunica com pessoas que se situem até dois graus acima ou abaixo do próprio grau. Para os que estão abaixo, rende-se admiração, sempre disfarçada de respeito, para não pegar mal; para os que estão um pouco acima, fazem-se concessões — assunto para um post do Márcio, a ver. Se a diferença for maior, nenhuma comunicação é razoável; predomina o ruído.

Por isso, o constrangimento das reuniões na casa daquele amigo sociável. Encontros com mais de oito e menos de vinte pessoas não funcionam. Forçosamente, haverá um intervalo de idiotice grande demais. Acaba com o idiota 2 sendo chamado de convencido, só porque teve a sorte e o ânimo de ler um livro que ninguém ali conhece (ou porque não conhece uma tal de Lia Luft); ou com o idiota 7 sendo alvo de gargalhadas incontidas, sem percebê-las, rindo também.

O sistema é complexo e exige detalhamento para o caso de um leitor de idiotice muito alta. Funciona mais ou menos assim: Michael Moore, por exemplo, é um idiota 7. Por isso, os idiotas 5 e 6 o aturam, fazendo concessões: “Ah, mas você não pode negar que o filme é bem feito!”; os idiotas 3 e 4 escrevem textos para criticá-lo, mostrando todos os erros que ele comete em cada cena; os idiotas 1 e 2 nem se dão o trabalho de comentar o filme e ficam constrangidos com quem comenta; e o idiota 0 não o conhece. Acima de 7, os idiotas 8 e 9 acham Michael Moore genial: “Quero ver o Bush se eleger depois desse filme!”; o idiota 10... Bem, o idiota 10 foge à lógica dessa escala: ele não entende quem vai ao cinema para ver documentário. Mas nós o perdoamos, porque ele é o próprio gente-boa.

fevereiro 16, 2005

Que se dne!

O maior benefício das tecnologias é poder humilhar os outros; quanto mais avançado o celular, maior a humilhação. Dá gosto; e aquele sorriso contido de desfaçatez e superioriedade no canto da boca não me deixa mentir. Alguns dizem não se contaminar e repetem que carro, para eles, só precisa andar. Esses, os maiores invejosos.

Tudo bem. Entre humanos, tudo se resolve: o cara do carro esculhambado ajeita os óculos escuros quando passa perto do ponto de ônibus. Quando vejo uma cena dessas, chego a gostar; penso que o ser humano ainda tem salvação. Humilhado por fetiches, contra-ataco logo: “Tomara que quebre!”

Mas uma experiência recente me fez pensar que isso tem um limite.

Quem o Google pensa que é?! Volta e meia, diante de algo mal digitado, aquela mensagem “Você quis dizer fotos da Luma?” Imaginem! O sistema dizendo que eu errei e, pior, dizendo-o em tom superior, já sugerindo uma correção. Tenho vontade de responder: “Não, eu quis dizer ftos da Luma mesmo. Você é que não entendeu.” Mas o Google não me dá essa opção. Ah, que saudade das mensagens mecanizadas de erro que eu sabia não serem para mim...

(Há quem discorde.)

fevereiro 13, 2005

Furos de reportagem

O Rio fica a 45 minutos de São Paulo, se você desembolsar 300 pratas. Com um por cento disso — o preço de um jornal de domingo —, a distância é muito maior.

Leia-se a Folha de S. Paulo do dia 6 de fevereiro, domingo de Carnaval; aliás, bastam as páginas iniciais. Na cobertura da festa, a 1ª página traz duas chamadas para artigos. No primeiro, Ferreira Gullar demonstra sua reconhecida perspicácia com um insight brilhante: segundo o poeta, em pouco tempo, as escolas de samba do Rio só terão brancos, seja desfilando, seja na platéia. O leitor fica estupefato: que sacação! Genial, genial, diria o Roberto do post aí de baixo. Como ninguém pensou nisso antes?!

Ainda sem conseguir vencer o largo sorriso, o leitor passa os olhos pela outra chamada. Desta vez, Danuza Leão e uma pergunta inquietante: por que o Cordão do Bola Preta é o bloco de rua mais longevo do Rio? A resposta, precisa e inimaginável, não tarda: trata-se da espontaneidade do bloco, do gosto pelo samba de verdade, do apreço pelo Carnaval de verdade, sem marketing, uma coisa assim de raiz. Caramba — suspira o leitor —, é mesmo! Que coisa!, exclama novamente, que esse leitor é dado a exclamações.

Com o gosto da satisfação pelo dinheiro bem gasto, o leitor se arrisca à página 2. Mas não se adianta. Temendo o que lhe reservam as pensatas, vira a página devagar. Para manter a coerência da carioquice, vai logo ao texto do Cony. Sob o título “Tombamento inútil”, o escritor fala sobre o Cristo Redentor, propondo interpretações inovadoras. Os braços abertos representam não apenas a benção, mas a surpresa com as belezas da cidade e a bronca contra os problemas. Quanta simbologia em uma única imagem — admira-se o leitor. Esse Cony, hein! Quando alguém imaginaria enxergar no Cristo tudo isso?

Antes de prosseguir, o leitor suspende o olhar, balança a cabeça sob a imaginação do privilégio que está tendo. Pensa em continuar, mas teme a decepção. Prefere ficar com as impressões que lhe foram presenteadas por três nomes da inteligência nacional e suspira fundo antes de beber mais um golé de café.

fevereiro 09, 2005

E a Beija-Flor, hein?

Desfile de Carnaval é como eleição: pode-se não acompanhar as escolas ou reclamar que é sempre a mesma coisa, mas a apuração do resultado ninguém perde.

fevereiro 06, 2005

Roberto ri por último

Roberto tem gestos largos e gargalhada fácil. Embora se ache dono da verdade, é um pouco ignorante e bem burro — mas tem gestos largos e gargalhada fácil.

Roberto gosta de definições, tanto mais radicais quanto mais ignorantes. A cada encontro com os amigos, uma nova — ou a repetição das velhas. Adora fazer comparações entre cineastas bons e cineastas brasileiros: “Cacá Diegues é o Fellini brasileiro,” repete sempre. Também costuma dizer que Manuel de Barros é um poeta genial. “Gente, ele é o Guimarães Rosa da poesia!” Quando fala de política, Roberto não deixa por menos: “O que o Brasil precisa é de um líder, o resto a gente resolve.” Para ele, “a única comida que presta é a italiana, e de cantina, que vem bem servida, porque, vocês sabem, comida é ingrediente, comida é ingrediente...” Os braços se abrem na frase, e depois de cada frase, a gargalhada fácil. Roberto ri fácil, e todos riem também.

Os amigos de Roberto gostam de falar mal dele em sua ausência; interpretam seu comportamento, relembram histórias, repetem sua ignorância. Não é difícil. Alguns já tinham tentado interceptá-lo ao vivo, durante a conversa. “Mas, Roberto, a idéia do filme é incomodar mesmo e fazer pensar.” Péssima estratégia, logo respondida com uma gargalhada franquíssima, seguida de um desdém preciso: “E você vai ao cinema para ficar incomodado?” E repetia a gargalhada, contagiando quem estivesse por perto.

Os amigos de velhos tempos já sabem disso e preferem calar, concordando com gentileza e se cutucando sob a mesa. Ali colhem material para o próximo encontro. Seu assunto preferido é Roberto. Alguns se perguntavam o que leva uma fraude como ele a ter uma namorada tão interessante. Outros trincam os dentes ao falar sobre seu sucesso como advogado. “Como é possível, o cara não consegue sustentar uma opinião?!” Há ainda os que duvidam de que ele seja tão idiota e imaginam estar diante de uma espécie de pegadinha... Mas todos concordam que, mais dia, menos dia, a fraude será descoberta. E riem risadas irregulares, cruzando os braços em gestos obtusos.

Roberto nem desconfia do que os amigos dizem sobre ele. Sempre os abraça largamente, prometendo aquela visita adiada, com a ressalva de sempre: “Mas vê se lê o Emir Sader, que o cara é gênio, hein!” E dá sua gargalhada aberta. Roberto não sabe, mas essa gargalhada é sua suprema ironia.

fevereiro 03, 2005

Sugestão para a próxima matéria de capa da Veja

Cada vez mais jornalistas estão inventando matérias de comportamento em que tentam descobrir tendências e modismos. (Título: “Forçando a barra”)

Explicação necessária para evitar constrangimento ao anfitrião que reclama minha presença em sua festa:

Danço. Mas num ritmo bem meu.