abril 17, 2005

Foi uma vez...

Esta farsa chega a seu fim. Não por falta do que inventar, mas pelo excesso. Expansivos que somos, queremos sempre mais. De agora em diante, estaremos ambos a postos.

O Márcio Guilherme volta a ser Márcio Guilherme; eu passo a ser apenas um Farsante. Ao nosso lado, o Alto Volta, uma espécie de Elio Gaspari do bem, e o Naïf Gendarme, de um cara que tem vinte anos por erro na ordenação cósmica.

A nos unir, três coisas em uma só: o portal A Postos — ou Apostos —, nosso manifesto bloguístico, o Blogma 2005, e o blog coletivo Todos A Postos.

Quem em link pra cá e quiser continuar conectado já pode atualizar o endereço. Ficamos gratos, ainda que por lá as coisas estejam em versão beta.

abril 16, 2005

Quem cala consente, sr. Rabin, ...

... e eu discordo. Aliás, discordo de tudo isso daqui.
Cansei.

Se quiser saber as razões, pode vir quente que estarei "a postos" !
Vai encarar?

Superioridade tem limite

Existem muitos tipos de blogueiros à procura de distinção aristocrática. Uns fazem disso seu tema; outros, seu estilo. Mas ninguém chega perto do Márcio Guilherme, que nem mesmo escreve.

abril 14, 2005

Quem tudo quer tudo quer

Li, num sonho à Borges — ah, beber antes de dormir... —, este adesivo colado no vidro de um carro laranja: “A velocidade da tua força é o sucesso da minha inveja.”

Como faz sentido, fica demonstrada a estupidez da frase original. Aliás, difícil decidir o que é pior: se esses substantivos abstratos arrumados numa ordem coerente qualquer, ou se as parábolas de significado idêntico: “Um passarinho, quando voa, sabe a asa que tem.”

Continuo gostando apenas do que não tem lógica, e nisso minha vó é insuperável: “Bate com a mão na cabeça antes que o pé não chegue.” Eu sempre entendi a reprimenda: sentido é apenas a metade de tudo.

abril 10, 2005

Disfemismo

Com as denúncias da quebra do celibato e de homossexualismo entre padres mundo afora, é realmente mau gosto chamar os candidatos a Papa de papáveis.

abril 08, 2005

Palavras, palavras, palavras

Aqui no Rio, criaram um movimento contra a violência chamado “Basta!” — logo parodiado como “Bosta!” (obviamente muito melhor) —, cujo objetivo é dar um “grito contra o atual estado de coisas”. Exige muita capacidade bolar uma idéia assim: uma palavra, um verbo tornado interjeição e... pronto. Depois, o grupo percebeu que as faixas estendidas nas varandas mais valorizadas da cidade não chegaram a desanimar os bandidos. Resolveu fazer alguma coisa concreta — só não me perguntem o quê, porque, a essa altura, eu já estava mais entretido com o obituário e os quadrinhos.

Mudando de rumo e buscando “soluções reais e factíveis”, o grupo perdeu sua maior virtude: ser o primeiro movimento inteiramente abstrato, teórico, sintetizado no minimalismo de uma palavra e um ponto de exclamação. Até mesmo o design seguia essa perspectiva: letras em vermelho sobre fundo branco. Apenas isso... e Basta! Que pena. Tivessem me consultado e eu daria uma opinião decisiva: sejam originais e não façam nada. Protesto verbal é o que há. E faz muito sucesso.

Vejam o caso dos colunistas que escrevem nos grandes jornais. Ainda esta semana, li um artigo a respeito do Papa e da Igreja Católica. Levo as mãos ao rosto em sinal de constrangimento e quase não me atrevo a contar o que li, mas... vá lá, façamos o sacrifício: num arroubo crítico contra as instituições, o cara me escreve “igreja católica” assim, com letra minúscula. Ainda dei uma chance a ele, imaginando que fosse erro de digitação, mas o protesto se repetiu quatro vezes. Isso é que é indignação! Como ninguém tinha pensado em algo tão genial antes?!

Fico tentando imaginar o que vai na cabeça de pessoas assim. Deve ser alguma coisa parecida com o que pensam os criadores do Basta!. Se ainda assumissem o discurso vazio, sem fundamento e sem ação, contribuiriam mais com a causa do que qualquer ong (assim, com minúscula mesmo) jamais fez.

O problema, penso, é a falta de leitura. Basta uma horinha em frente ao Bartleby, de Herman Melville, para verificar o que pode a inércia humana. Se bem que o “Prefiro não fazer” (“I would prefer not to”, no original) do escrivão não combina com pontos de exclamação, mas isso é pedir demais dessa gente. Prefiro não fazer.

abril 01, 2005

Suspensão das aulas

Umas centenas ou milhares de brasileiros estão rezando para que João Paulo agüente firme até segunda-feira. A fé é capaz de cada coisa...

março 26, 2005

Traz um chopp e some!

O Naun tem razão: uma das piores pragas em voga é a síndrome dos garçons universitários. Contratados por bares e restaurantes da moda, eles transmitem uma mensagem curiosa sobre estes tempos, embora eu não saiba qual é. Pensei em dizer que eles estão ali para dar status ao lugar, mas isso seria piada: universitário brasileiro dando status a alguma coisa.

A qualidade do trabalho de um garçom é quase inversamente proporcional ao seu nível de escolaridade, e não há preconceito nisso. Vou ao bar e quero uma figura invisível, que me sirva chopp, de preferência sem que eu peça. Que idéia idiota achar que o cliente quer um amigo que o sirva: “Oi, meu nome é Fabrício (acho que todos se chamam Fabrício) e eu vou estar atendendo vocês”, diz, sentando-se à mesa. “Oi, Fabrício, levanta já!”

Pensando bem, até onde a experiência permitiu verificar, esses garçons universitários estão no emprego certo. São lugares em que não se encontram chopp, filé e fritas, mas apenas chopp perfumado com rosas, filé sobre leito de folhas verdes e “nossas incríveis fries com delicioso molho de queijo e pedaços de alguma coisa”. Com tanta enrolação, merecem atendentes enroladores. Nisso devem ser bons: afinal de contas, estão na universidade.

O pior talvez seja a ironia — e a pior ironia é a do idiota, que acha estar sendo irônico, quando está apenas sendo babaca —, o pior é o sorrisinho irônico diante de um prato pedido para dividir: “Olha, nossos pratos são individuais”, diz o Fabrício, com leve sotaque paulista (Fabrícios vêm de São Paulo, eu acho). O Naun sugere a resposta: “Eu sei, Fabrício, mas vou pedir para dividir porque, ao contrário de você, que é milionário e trabalha de garçom aqui, eu quero economizar e me poupar de comer um prato inteiro dessa comidinha fresca de merda.” Podem testar; funciona.

março 25, 2005

Quer comer limpo, vá comer em casa!

Desde pequeno, sempre gostei de competições. Chegava a jogar Banco Imobiliário contra mim mesmo, roubando para o azul, é claro. Em 1982, ainda moleque, acompanhei cada lance das eleições estaduais, atualizando os resultados para a família. Torcia para o Brizola, o que dava mais emoção à coisa toda.

Esse espírito competitivo acabou me atrapalhando algumas vezes. Não estudei piano, porque percebi que não conseguiria sequer começar a me comparar a qualquer um. Também desisti — sofrendo — da Ana Cláudia, a menina mais bonita do colégio.

Mas o tempo passou, e as coisas mudaram. Não que eu tenha deixado a competição de lado. Nada disso. Apenas mudei de foco.

Hoje, o que me empolga mesmo são as colunas de reclamações de leitores de jornal. Ah, nada como uma briguinha de comadres impressa em páginas “oficiais”. Gosto, especialmente, de quando reclamam de restaurantes. “O filé veio quase cru!” “Aquela barata passou perto da mesa e o gerente disse ela tinha vindo da rua.” “Um absurdo combrarem tanto por uma entrada tão pequena.” Pelo teor da coisa, já se vê quem fala.

E como, apesar de tudo, sou brasileiro, torço sempre pela parte mais fraca. Por isso, vibro cada vez que um maître dá um fora bem dado num cliente reclamão. Com tanta coragem e firmeza, o restaurante há-de ser bom.

março 20, 2005

Il miglior fabbro

"Descrentes terão sempre essa vantagem sobre crentes, que é o fato de que um crente pode ter tanto senso de humor quanto quiser, mas no centro da sua crença existe algo que não é uma piada, algo que é sério. E porque somos fracos, a seriedade parece sempre frágil diante de qualquer zombaria."

Trecho do post de 16 de março do Alexandre Soares Silva. Não deixe de ler o resto do texto aqui.

março 19, 2005

A prisão da Gramática

Durante muito tempo, cultivei o desejo de escrever um post que começasse por um pronome oblíquo átono, mas não conseguia. Pensava que deveria tentar, exigir de mim a força necessária para fazê-lo. Cheguei até a completar um texto, mas não conseguia publicá-lo. Por certo tempo, deixei-o ali nos drafts, imaginando que sua hora chegaria. E chegou: hoje eu o apaguei para sempre.

Próclise em início de período é o cacete. Não escrevo, e pronto. Razões não faltam.

A primeira delas é a companhia. Diga-me aí, você que manja de literatura, o que é melhor: ficar ao lado de Machado e Graciliano ou de Mário de Andrade e os moderninhos? Elegância é só uma parte da coisa, mas é a melhor parte.

A segunda é o background teórico. Você já viu um lingüista? É um tipo triste, muito triste, que se obriga a ser natural e alegre, que vibra com os dentes trincados quando encontra uma concordância desviante. Essa história de amor ao desvio, não sei, não, mas me parece coisa de idiota.

A terceira razão é o fundamento das duas primeiras: gosto de prisões e tradições. Eu nada seria sem os meus limites; minha busca interior tem sido no sentido de encontrá-los, criar orgulho de todos, dar carinho a cada impossibilidade.

Por isso, cada vez que leio o LLL e sua série sobre as prisões, fico pensando que este blog deveria se chamar “Conservador, Conservante, Conservado”, o que, além de tudo, daria uma bela sigla.

março 18, 2005

Farsante

Eis a inspiração de tudo:


março 13, 2005

Contos Sensoriais (II)

Havia um retrato na parede do quarto de Isabel. Era o retrato de uma velha — ela me contou —, uma fotografia esquecida pelo antigo morador da casa que acabara de alugar. Era o retrato de uma velha, uma imagem envelhecida também. No olhar da velha, sua velhice inteira, disse-me Isabel. Não que houvesse ali sabedoria ou experiência, “essas coisas que queremos ver nos velhos, porque queremos ver em nós mesmos”. Não, em seu olhar havia apenas velhice: nenhuma transparência, opacidade pura. Isso tudo me contou Isabel, porque eu já não podia ver.

E me contou também que aquela velha era um pouco ela própria. Como? — perguntei-lhe. Isabel ficou em silêncio. Insisti em tom mais alto, imaginando que ela não tivesse me ouvido. Novo silêncio. Isabel olhava-me fixamente. Isso eu não podia ver, mas sabia. Isabel tinha os olhos marejados. Isso eu não podia ver, mas sentia em minhas mãos, entendendo que me restava também o silêncio.

O retrato da velha na parede nos contemplava vazio. Isabel não chegou a chorar, porque não queria que as lágrimas limpassem seu olhar do silêncio mais fundo. Isabel queria o vazio também, um vazio que a aproximasse da velha na parede; um vazio que a aproximasse de mim.

março 08, 2005

Preferiria falar dos olhos das espanholas

"Just when I thought I was out, they pull me back in!"
Michael Corleone, O Poderoso Chefão (Parte III)


Amigos da Farsa -

Estava há três semanas sem discutir política. As reportagens a respeito das manifestações em favor da democracia em Beirute acabaram, no entanto, por mudar o assunto aqui no albergue - de Velázquez pulamos para a Síria, depois para a situação do Oriente Médio como um todo, e, finalmente, como não poderia deixar de ser... para a política externa americana.

Nao quero entediá-los aqui com as voltas da discussão de ontem, mas gostaria de compartilhar duas inquietações que voltaram a me perseguir durante a conversa. A primeira: por que as pessoas, mesmo aqui na Europa, dizem Bâsh, em vez de Bush? E a segunda: como é possível criticar as instituições políticas americanas pelo suposto arcaísmo que representam o colégio eleitoral e o radicalismo da proposta federalista dos founding fathers, declarando na frase seguinte que não se deve qualificar de "atraso" o despotismo da maior parte dos governos no Oriente Médio, já que a prática política na região tem raízes profundas nas tradições e nos costumes árabes - aos quais, segundo reza a cartilha de boas maneiras intelectuais, não se devem aplicar juízos de valor?

Discutir com os cambada multiculturalista não dá mesmo pé. São como aqueles meninos tronchos do futebol no colégio: é só deixar rolar que a bola marca.

março 07, 2005

O que Lobão e Ed Motta (não) têm em comum

Bem no comecinho de Manhattan, há aquela cena inesquecível em que os personagens de Diane Keaton e Michael Murphy conversam sobre artistas “overestimated”, sob o protesto frenético do Isaac de Woody Allen. Quando chegam a Bergman, ele quase tem um infarto.

A cena é engraçada e me veio à cabeça a propósito de duas entrevistas ouvidas recentemente. Uma com Ed Motta; outra com Lobão. Quem os ouve falar — e tem a sorte de não ouvi-los cantar — deve ter a impressão de que se trata de gênios da música, talentos cuja qualidade justifica qualquer arrogância. Um fala de suas incursões pelo jazz; outro, de seu “diálogo” com a MPB. Eles devem estar de sacanagem. É um descompasso tão grande entre auto-imagem e obra, que a piada se torna peça de mau gosto. Levar-se a sério tem dessas coisas.

março 05, 2005

Sobre a minha miopia neurótica descoberta há pouco, por sugestão de um amigo mais esperto

Hoje eu ia contar a história do Gilmar, um cara que só se preocupa com miudezas. Em casa, ele traça algoritmos mentais para tudo. Acorda e, antes de se levantar, imagina a ordem das tarefas que tem a fazer: humm, colocar o pão na torradeira, beber um copo d'água, levar essas meias do quarto para a área, escovar os dentes, checar o email. Coloca tudo na seqüência mais econômica e vai fazendo: pega a meia com a mão esquerda, passa no escritório, liga o computador, passa pela cozinha, coloca o pão na torradeira com a mão direita, deixa as meias na área, liga o filtro, vai ao banheiro escovar os dentes, conecta a internet, pega as torradas e o copo d'água... Tudo isso enquanto planeja próxima seqüência do dia. Gilmar é avesso às grandezas e só enxerga coisas mínimas. O processo, a estratégia, o longo prazo ficam lá, bem fora do alcance da vista.

Gilmar só se preocupa com miudezas e eu ia contar a sua história hoje, mas desisti. Tolstoi aconselhou falar da aldeia, é verdade, mas do umbigo já é demais. Além disso, preciso ligar o gás, pegar a toalha, colocar a comida no microondas, levar o telefone para o quarto, fechar a cortina...

março 04, 2005

Recursos humanos, demasiado humanos

Se Nelson Rodrigues estivesse na ativa, trocaria a figura do contínuo por sua correspondente contemporânea — a gerente de RH. Para quem nunca identificou uma dessas infelizes, uma dica do farsante ausente: é aquela que acha o Jô Soares “uma pessoa muito inteligente” e que deixaria numa ilha deserta “todas as maldades do mundo.”

Sem dúvida, esse perfil produz um desprezo muito grande por quem se acha mais bacana e esperto. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, uma gerente de RH entra na sua vida. E aí, na hora de escolher entre você e um outro candidato, ela diz à outra gerente: “Achei esse rapaz muito sério; o outro tem um astral pra cima, sabe.”

Pior ainda é saber que se trata de problema insolúvel, pois que situado num belo círculo vicioso. Quem escolhe as gerentes de RH são as próprias gerentes de RH.

março 01, 2005

Triste Fim de Oswaldinho Nota Verde

Ainda na escola, Oswaldo aprendou a amar o Capitalismo, que fazia questão de escrever assim mesmo, com maiúscula. Sua namoradinha de ginásio, a Ritinha, ficou apaixonada por um professor hippie de geografia — Felipe, Lipão para os próximos —, para quem a propriedade privada era um assalto (ou roubo, não se lembrava bem). Oswaldo tomou o professor como inimigo e resolveu atacá-lo com sua melhor arma à época: “Professor, fala rápido: Marx, Eva e Adão.” Não deu muito certo, e Oswaldo resolveu estudar.

Na sétima série, já conhecia Adam Smith em detalhe, preferências gastrômicas e doenças familiares incluídas. Queria mostrar àquele barbudo com quantos argumentos se ganha uma garota. No entanto, quanto mais lia, mais se dava conta de que sua vitória sobre o professor não seria na porrada, nem no bate-boca; resolveu ficar rico e ganhar a namorada de volta. Para isso, nada melhor que ser doutor. Oswaldo estudava muito, mas só se interessava por capitalistas que se assumissem de boca cheia. Resultado: tirou zero em história e não passou no vestibular. Como era contra a universidade pública, ficou até satisfeito, mas não podia pagar uma particular. Embora fosse capitalista, Oswaldo mal tinha o da passagem. Resolveu se virar.

Primeiro tentou um empreendimento próprio. Viu que no bairro só havia uma banca de jornal e montou a sua. No início até que vendia bem; tinha um bom papo e se tornou ídolo dos aposentados das redondezas. Seus argumentos — acredita-se — foram a matéria-prima de dezenas de cartas de leitores enviadas ao jornal da cidade, daquelas em que se protesta com frases de efeito. Sua banca sempre cheia acabou atraindo outros jornaleiros e, em pouco menos de dois anos, Oswaldo faliu. Não ficou chateado; antes o contrário: viu naquilo a beleza da livre concorrência e do espírito empreendedor.

Depois da tentativa frustrada, Oswaldo ainda sonhou com uma towner, mas ficou no sonho mesmo. Acabou arrumando um emprego numa firma de serviços gerais. Não tinha carteira assinada, mas não via mal nisso. Afinal, ele vendeu sua força de trabalho como quis e quem seria o Estado para reclamar disso? Mas o Estado reclamou, e uns fiscais obrigaram a firma a empregá-lo oficialmente. Férias, décimo-terceiro, aquela coisa toda. Oswaldo entrou em depressão: estava feliz com a CLT, logo ele, que tanto gritava contra aquele absurdo. Antes que fizesse uma besteira, foi demitido.

Oswaldo não desanimou. Achou que a política seria o seu lugar e não tardou a se filiar a um partido liberal. Logo descobriu que o nome não dizia muita coisa: em seu primeiro discurso, ouviu um bocejo a cada citação de um economista de renome. Quando chegou a Schumpeter, um colega o interrompeu numa salva de palmas. Só saiu candidato porque se comprometeu a não falar difícil. “Povo gosta de emprego, não de trabalho,” disseram-lhe. Irritado com a censura freqüente, Oswaldo exigiu respeito à sua coerência, no que foi prontamente atendido: passaria a se chamar Oswaldinho Nota Verde, em alusão aos dólares que adorava elogiar. A campanha não deu certo. Ninguém parecia disposto a doar dinheiro para alguém com aquelas idéias. “Mas o que eu defendo é exatamente o seu lucro”, insistia, antes de ouvir a resposta de sempre: “Meu filho, se eu quisesse livre concorrência, não dava dinheiro pra campanha política.” Os votos dos aposentados do bairro não salvaram Oswaldo da derrota humilhante. A política o expulsou de vez.

No dia da eleição, Oswaldo ficou cabisbaixo; não pela derrota, que ele até compreendeu. Triste mesmo foi ver a Ritinha toda prosa ao lado do Lipão, num conversível mais que bacana. Arrasado, Oswaldo ainda teve tempo de pegar o ônibus, mas ninguém sabe para onde.

fevereiro 27, 2005

Contos Sensoriais (I)

Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.

Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.

fevereiro 25, 2005

O Millôr já fez a conta

É sempre uma questão de expectativa. Fosse Greenhalgh ou João Paulo, haveria gritaria ensurdecedora à simples menção da palavra ”aumento”. No que compete à opinião pública, indisposição generalizada, constrangimento e... gaveta. Como se trata de Severino, a quem o aumento nunca pareceu vergonhoso, a perplexidade não dura mais que duas semanas. Até lá, tudo estaria certo — se a estratégia fosse a do silêncio.

Mas Severino não se agüentou e colocou os argumentos na mesa:

— É evidente que a sociedade quer. Ela está aceitando. Não tem sido é bem esclarecido. Não existe essa coisa de posição contra. O que a sociedade não aceita é desonestidade, é roubalheira. E se existir isso dentro da Câmara, vou acabar.

A sociedade é abstrata; não vai ser ouvida pelos jornais ou pelo Congresso. Mesmo que o fosse, não serviria, pois não sabe o que fala. Nem de seus representantes se pode esperar grande coisa:

— Isso é um problema desses partidos que estão fazendo apenas demagogia. Eles estão doidos por esse aumento. Não vai perder (em plenário) que eu tenho certeza, porque demagogos têm poucos aqui na Câmara.

Subestimar o outro não tem sido boa estratégia: as palavras ferem mais do que o aumento. Se voltar a ficar quieto, tendo razão (ignorância e demagogia), é capaz de chegar aonde quer; não seria surpresa para ninguém. Articulistas em jornais só se fazem ouvir por quem os lê. Não parece ser o caso.

Como diz o Millôr, dividindo toda nossa indignação por todos os problemas do país, o percentual que sobra para cada um é muito pequeno.

fevereiro 23, 2005

Da janela

Era uma paisagem tão bonita, mas tão bonita, que parecia uma foto.

fevereiro 21, 2005

Pax Cannabis

O problema não é ter fumado; o problema é não fumar mais.

fevereiro 19, 2005

Escolhas

Amigos da farsa;

Já mochilaram alguma pela Europa? Estou planejando mochilar durante minhas férias, mas nunca pensei que organizar tudo fosse tão difícil. Aliás, pra dizer a verdade, nunca enfrentei um número tão grande de escolhas em tão pouco tempo: devo investir em profundidade (passando bastante tempo em poucas cidades), ou em lateralidade (visitando muitos lugares, mas ficando por pouco tempo em cada um deles)? Devo ir de uma cidade a outra de avião, ou devo viajar de trem? Devo levar minha câmera digital, ou devo trazer comigo a de estimação, que é manual?

Coro: Tantas escolhas!, tantas escolhas!, tão pouco tempo! (acabei de assistir ao Poderosa Afrodite)

Tenho que confessar, no entanto, que o pior de todos os dilemas é a escolha do livro que me acompanhará na jornada. Fiz uma seleção prévia e arrumei os candidatos numa pilha em cima da mesa do quarto. Primeiro, eliminei tudo que tinha capa dura – as obras completas do Oscar Wilde, “Paidéia”, do Werner Jaeger (alguém já leu algo mais maravilhoso?), um volume das obras completas do Borges. Decidi então que levaria um romance – tirei da pilha um livro do Voegelin, o “Jews and Islam”, do Bernard Lewis e... fiquei com o “Complexo de Portnoy”, do Philip Roth. Não sei se a escolha foi boa, mas é a vida neste meu lugar. E como dizia Santayana (attention please: momento erudição barata!), “a vida não é nem um espetáculo, nem um banquete – é um dilema” (tirei a frase daqui. Aproveitem e leiam o post todo).

Mas enfim - depois de vários papéis amassados, algum sangue, muitas lágrimas e dor de cabeça, tomei as seguinte decisões:

Câmeras: what the heck! – a manual e a digital.
Livro: “O Complexo de Portnoy”, do Philip Roth.
Cidades: Madrid, Toledo, Barcelona, Roma, Florença, Berlim, Amsterdam e Paris (nessa ordem, mas não exatamente nessa ordem).
Remédios: Tylenol, Adnax, Singulair, Claritin D, Rinosoro, algum antibiótico (não lembro do nome), e um colírio (não tenho óculos escuros - going to Amsterdam, baby (just kidding!)).

O que acham?

Homo Economicus Ethicus, as if

Os escândalos financeiros recentes no mundo corporativo americano (Enrom, WorldCom, Tyco) deram espaço a uma pergunta “despropositada”: e a ética desses caras, onde foi parar? Quem a faz não é o barbudinho da esquina, mas o ex-professor da LSE Sumantra Ghoshal, em artigo póstumo. Para ele, a raiz comum aos problemas está nos cursos de MBA, requisito de dez entre dez engravatados das grandes companhias.

Segundo Ghoshal, os MBAs se arrogam um status acadêmico discutível. Estudos de caso e modelos matemáticos não compõem base científica — afirma —, sobretudo porque dispensam a reflexão metodológica e resumem o mundo dos negócios a duas verdades simplistas: a soberania do homo economicus (utilitarista, racional, competitivo) e o objetivo único de maximização dos ganhos dos acionistas das grandes empresas.

Com o diploma na mão, a rapaziada recrutada pelas empresas se sentiria livre, do ponto de vista moral. E essa liberdade — mal lida em cursos de um ano ou dois — estaria se voltando contra as próprias corporações e os próprios businessmen. Daí os escândalos.

A Economist, é claro, dá seu recado. Além de excessiva, a crítica de Ghoshal desconsidera três pontos centrais: 1) nos escândalos citados, os executivos corruptos, em boa parte, não fizeram MBA; 2) a crença no homo economicus tem decaído em toda parte, até mesmo na Universidade de Chicago; 3) não se pode esperar aprofundamento científico de um tipo de curso cuja essência está na prática dos negócios. Para a revista, o problema é outro: corporações que valorizam esse diploma em demasia, como se a capacidade de liderança pudesse vir de conhecimentos despidos de maturidade e sabedoria — para os quais não há curso possível.

Ainda assim, adesões de pesos-pesados têm feito a onda do momento na discussão acadêmica no eixo EUA/Inglaterra. Não chegam a ser tsunamis, mas já limparam quintais: Harvard e Stanford aceitam parte das críticas e passam a incluir Ética como disciplina de seus MBAs. “Escolha” e “intenção” deixariam os dicionários para entrar na análise econômica dos administradores recém-formados.

No Brasil, a expansão MBAs só é comparável à de cursos universitários; o mesmo se pode dizer de sua qualidade, questionável na maior parte dos casos. Mas a discussão não deve pegar. Antes e fora da moda desse diploma, a corrupção nunca foi o ponto fora da curva; na maior parte das vezes, é a própria curva. Por aqui, reserva-se à Ética o bueiro da discussão dita “ideológica” — à direita e à esquerda —, como se isso a tornasse indigna.

fevereiro 18, 2005

Da idiotice humana

Há, para quem não sabe, uma escala da idiotice humana. Cada um de nós se comunica com pessoas que se situem até dois graus acima ou abaixo do próprio grau. Para os que estão abaixo, rende-se admiração, sempre disfarçada de respeito, para não pegar mal; para os que estão um pouco acima, fazem-se concessões — assunto para um post do Márcio, a ver. Se a diferença for maior, nenhuma comunicação é razoável; predomina o ruído.

Por isso, o constrangimento das reuniões na casa daquele amigo sociável. Encontros com mais de oito e menos de vinte pessoas não funcionam. Forçosamente, haverá um intervalo de idiotice grande demais. Acaba com o idiota 2 sendo chamado de convencido, só porque teve a sorte e o ânimo de ler um livro que ninguém ali conhece (ou porque não conhece uma tal de Lia Luft); ou com o idiota 7 sendo alvo de gargalhadas incontidas, sem percebê-las, rindo também.

O sistema é complexo e exige detalhamento para o caso de um leitor de idiotice muito alta. Funciona mais ou menos assim: Michael Moore, por exemplo, é um idiota 7. Por isso, os idiotas 5 e 6 o aturam, fazendo concessões: “Ah, mas você não pode negar que o filme é bem feito!”; os idiotas 3 e 4 escrevem textos para criticá-lo, mostrando todos os erros que ele comete em cada cena; os idiotas 1 e 2 nem se dão o trabalho de comentar o filme e ficam constrangidos com quem comenta; e o idiota 0 não o conhece. Acima de 7, os idiotas 8 e 9 acham Michael Moore genial: “Quero ver o Bush se eleger depois desse filme!”; o idiota 10... Bem, o idiota 10 foge à lógica dessa escala: ele não entende quem vai ao cinema para ver documentário. Mas nós o perdoamos, porque ele é o próprio gente-boa.