março 01, 2005

Triste Fim de Oswaldinho Nota Verde

Ainda na escola, Oswaldo aprendou a amar o Capitalismo, que fazia questão de escrever assim mesmo, com maiúscula. Sua namoradinha de ginásio, a Ritinha, ficou apaixonada por um professor hippie de geografia — Felipe, Lipão para os próximos —, para quem a propriedade privada era um assalto (ou roubo, não se lembrava bem). Oswaldo tomou o professor como inimigo e resolveu atacá-lo com sua melhor arma à época: “Professor, fala rápido: Marx, Eva e Adão.” Não deu muito certo, e Oswaldo resolveu estudar.

Na sétima série, já conhecia Adam Smith em detalhe, preferências gastrômicas e doenças familiares incluídas. Queria mostrar àquele barbudo com quantos argumentos se ganha uma garota. No entanto, quanto mais lia, mais se dava conta de que sua vitória sobre o professor não seria na porrada, nem no bate-boca; resolveu ficar rico e ganhar a namorada de volta. Para isso, nada melhor que ser doutor. Oswaldo estudava muito, mas só se interessava por capitalistas que se assumissem de boca cheia. Resultado: tirou zero em história e não passou no vestibular. Como era contra a universidade pública, ficou até satisfeito, mas não podia pagar uma particular. Embora fosse capitalista, Oswaldo mal tinha o da passagem. Resolveu se virar.

Primeiro tentou um empreendimento próprio. Viu que no bairro só havia uma banca de jornal e montou a sua. No início até que vendia bem; tinha um bom papo e se tornou ídolo dos aposentados das redondezas. Seus argumentos — acredita-se — foram a matéria-prima de dezenas de cartas de leitores enviadas ao jornal da cidade, daquelas em que se protesta com frases de efeito. Sua banca sempre cheia acabou atraindo outros jornaleiros e, em pouco menos de dois anos, Oswaldo faliu. Não ficou chateado; antes o contrário: viu naquilo a beleza da livre concorrência e do espírito empreendedor.

Depois da tentativa frustrada, Oswaldo ainda sonhou com uma towner, mas ficou no sonho mesmo. Acabou arrumando um emprego numa firma de serviços gerais. Não tinha carteira assinada, mas não via mal nisso. Afinal, ele vendeu sua força de trabalho como quis e quem seria o Estado para reclamar disso? Mas o Estado reclamou, e uns fiscais obrigaram a firma a empregá-lo oficialmente. Férias, décimo-terceiro, aquela coisa toda. Oswaldo entrou em depressão: estava feliz com a CLT, logo ele, que tanto gritava contra aquele absurdo. Antes que fizesse uma besteira, foi demitido.

Oswaldo não desanimou. Achou que a política seria o seu lugar e não tardou a se filiar a um partido liberal. Logo descobriu que o nome não dizia muita coisa: em seu primeiro discurso, ouviu um bocejo a cada citação de um economista de renome. Quando chegou a Schumpeter, um colega o interrompeu numa salva de palmas. Só saiu candidato porque se comprometeu a não falar difícil. “Povo gosta de emprego, não de trabalho,” disseram-lhe. Irritado com a censura freqüente, Oswaldo exigiu respeito à sua coerência, no que foi prontamente atendido: passaria a se chamar Oswaldinho Nota Verde, em alusão aos dólares que adorava elogiar. A campanha não deu certo. Ninguém parecia disposto a doar dinheiro para alguém com aquelas idéias. “Mas o que eu defendo é exatamente o seu lucro”, insistia, antes de ouvir a resposta de sempre: “Meu filho, se eu quisesse livre concorrência, não dava dinheiro pra campanha política.” Os votos dos aposentados do bairro não salvaram Oswaldo da derrota humilhante. A política o expulsou de vez.

No dia da eleição, Oswaldo ficou cabisbaixo; não pela derrota, que ele até compreendeu. Triste mesmo foi ver a Ritinha toda prosa ao lado do Lipão, num conversível mais que bacana. Arrasado, Oswaldo ainda teve tempo de pegar o ônibus, mas ninguém sabe para onde.

3 Comments:

Blogger Alex said...

Os donos desse blog estao devida e pessoalmente convocados a fazerem parte das comemoralções dos 2 anos do LLL, na cinelândia, na sexta agora, a partir das 19hs...

Vocês vão, né, seus farsantes?

12:31 AM  
Blogger Bruno Rabin said...

Alexandre, o Márcio está nas Europas e eu, no trabalho. Vou tentar dar um jeito e passar lá, mas talvez eu vá disfarcado. Abraço,

8:08 PM  
Anonymous Erika Maia said...

Espetáculo de texto, Bruno! Até agora é o meu preferido, embora todos sejam ótimos. Bjinhos!

5:09 PM  

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