Setembro 15, 2004

Explicando o beijo apaixonado dos Clintons na cama do Hospital

Acompanhar campanhas políticas diverte, e não há tema que vista melhor a carapuça deste blog. Mas como a coisa no Rio anda morna e de São Paulo entendo pouco, mudo para a “Fox News” e treino meu inglês.

Por aqui muito se dizia, há alguns meses, que a eleição americana deste ano seria mais do que a mera escolha do próximo presidente – em verdade, funcionaria como um referendo popular de aprovação (ou condenação) da estratégia de combate ao terrorismo conduzida pelo presidente Bush.

Como se vê, nada mais distante da realidade. Surpreendente como possa parecer, mesmo em meio à tempestade política provocada pelo time de Bush nos últimos três anos, é o caráter de John Kerry, o adversário democrata, o principal tema desta campanha.

Há lógica (e intenção) por trás dessa dinâmica eleitoral. A maior parte da população americana ainda enxerga o mundo e os homens por meio de categorias cristãs. Há bem e há mal – há sim e não, exatamente como nas palavras de Cristo que citei em meu post anterior. A convicção é tida pelos americanos como um valor em si, sendo a ambigüidade sinal de fraqueza moral. Os atos são quase sempre julgados pela intenção que se imagina tê-los motivado, e raramente por seus resultados práticos.

John Kerry é a imagem da ambigüidade. Transita de uma posição a outra como quem troca de camisa, o que se verifica facilmente por meio de seu longo histórico de incoerências no Senado. Chamam-no por lá de flip-flopper, algo como o nosso “vira-casaca”. Daí o esforço de seu staff para trazer à tona algum heroísmo de guerra de 30 anos atrás - foram buscar no Vietnam o verniz que Bush conseguiu no Iraque.

Ora, falar de Vietnam nos Estados Unidos é enfiar agulha em nervo exposto. Além disso, mesmo o heroísmo de Kerry tem sido questionado (com sucesso) por meio das mãos habilidosas (e invisíveis) dos estrategistas republicanos. É uma sinuca-de-bico: não podendo apresentar o sua participação na guerra como credencial de firmeza moral, Kerry passou a encenar essa firmeza por meio de ataques previsíveis ao serviço militar do presidente Bush na National Guard. O resultado não poderia ser pior, e o escândalo envolvendo a falsificação de documentos pela rede CBS é amostra disso.

O que se pode observar através das últimas pesquisas é, portanto, paradoxal: mesmo com o desastre no Iraque, mesmo com o aumento sem precedentes do déficit público americano e com a lentidão da retomada econômica (não esquecendo as imagens de tortura em Abu Ghraib), a candidatura Kerry não consegue decolar. E se estou certo, é fácil entender o porquê: os democratas serão derrotados por não terem conseguido compreender em tempo a natureza desta eleição (a primeira desde o 11/09) – o que está em jogo não é o logos do candidato, e sim seu ethos - talvez dissesse o apóstolo Paulo que, eventualmente, “todas as outras coisas lho serão acrescentadas”.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Excellent, love it! » » »

9:38 PM  
Anonymous Anônimo said...

This is very interesting site... » » »

2:33 PM  

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